Desde que voltei da Coreia, existe uma pergunta que eu escuto quase todos os dias:
“Mas por que a Coreia?"
A resposta nunca é simples.
Sim, em algum momento da minha vida eu namorei um coreano, mas reduzir o meu encantamento pelo país a isso seria injusto. O que me fez apaixonar pela Coreia vai muito além de uma história pessoal. É um país que preserva sua cultura com orgulho, que consegue ser extremamente moderno sem abrir mão das próprias tradições. Está sempre inovando, seja na música, no cinema, na tecnologia ou na gastronomia, mas sem perder sua identidade.
E foi justamente através da comida que eu entendi isso.
Todo brasileiro cresce ouvindo que a nossa culinária é a melhor do mundo. E eu continuo concordando. A comida brasileira tem uma riqueza e uma diversidade difíceis de comparar. Mas conhecer a culinária coreana me fez descobrir que eu viveria tranquilamente só dela. Não apenas pelos sabores intensos, pela variedade de acompanhamentos ou pelos temperos tão característicos, mas por tudo o que existe ao redor da refeição.
Na Coreia, comer nunca parece ser apenas uma necessidade.
É uma experiência.
A preocupação com a estética vai muito além da aparência das pessoas. Ela está presente nos cafés espalhados por praticamente todas as esquinas, nos restaurantes cuidadosamente decorados, na apresentação dos pratos e até na forma como cada detalhe é pensado para receber quem chega. Existe um cuidado evidente em transformar uma simples refeição em algo agradável de viver.
Mas, de tudo o que conheci, talvez o que mais tenha me marcado tenha sido a cultura do compartilhamento.
As mesas são feitas para dividir. Os pratos chegam ao centro, todos experimentam um pouco de tudo, as conversas acontecem naturalmente e a comida deixa de ser individual para se tornar coletiva. Compartilhar parece fazer parte do ritual.
Outra curiosidade que me chamou atenção foi a relação entre comida e bebida. É muito raro ver alguém sentado em um bar apenas bebendo. Normalmente, a bebida vem acompanhada de comida. Inclusive, existe um entendimento cultural de que beber sem comer não é o ideal — exceto, claro, em contextos como baladas ou festas. A refeição faz parte do encontro.
Isso diz muito sobre o significado da comida para eles.
Existe até uma expressão muito comum na Coreia: em vez de perguntar "Como você está?", muitas pessoas perguntam *"Você já comeu?"*. Historicamente, essa pergunta surgiu em períodos de escassez como uma forma genuína de demonstrar cuidado e preocupação com o outro. Hoje, ela continua sendo uma demonstração de afeto e proximidade.
Percebi que, para os coreanos, comida é acolhimento.
É cuidado.
É tempo de qualidade.
É família.
É amizade.
É comunidade.
Voltei pensando que talvez seja isso que mais me encantou na Coreia. Não foi apenas a culinária, mas a forma como ela conecta as pessoas. Como transforma uma refeição em um momento de presença.
E talvez seja justamente isso que nos falte um pouco.
Vivemos cada vez mais apressados. Almoçamos olhando para o celular, jantamos correndo ou cada um em um horário diferente. Esquecemos que uma mesa pode ser muito mais do que um lugar para matar a fome. Ela pode ser um espaço de conversa, de risadas, de reconciliações e de memórias.
Viajar me ensinou que conhecer outra cultura não é apenas descobrir novos sabores. É voltar para casa questionando os nossos próprios hábitos.
E você? Qual foi a maior lição que outro país ou outra cultura deixou para a sua vida e que gostaria de ver mais presente no Brasil?